Você duvida (demais) de si mesmo?

Conheça a Síndrome do Impostor

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Reflita nos seguintes exemplos:

  1. O doutorando, que acredita não ter conhecimento suficiente sobre sua tese, pode postergar ou fugir da defesa de tese.
  2. O médico, que acha não ser merecedor do título de doutor, pode esconder na vida social a sua titulação ao máximo possível.
  3. O professor, que presume não ser capaz de apresentar em congressos, pode enviar seus alunos para os eventos científicos sempre fugindo de se expor.
  4. A pessoa, que pensa não ser capaz de dedicar-se à vida acadêmica, pode se autossabotar e nunca passar em concurso, mesmo tendo conhecimento e currículo de alto nível.
  5. O adolescente com boa habilidade esportiva que teme competições por sentir medo de falhar.
  6. Você foi promovido no trabalho e em vez de comemorar a tão almejada promoção, a única coisa que você consegue pensar é que ela só ocorreu por pura sorte e chega até a questionar se suas habilidades atuais condizem com o novo cargo, sem reconhecer o seu merecimento.

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Se identificou? Talvez você seja portador da Síndrome do Impostor:

A consciência portadora da Síndrome do Impostor tem sentimento intenso de falta de autenticidade em relação à imagem de competência que passa para as outras consciências, mesmo com êxitos reais.

Essa denominação geralmente é atribuída a quem costuma demonstrar sinais de autossabotagem. São pessoas que manifestam um complexo de inferioridade, que não se sentem “boas o suficiente”, odeiam cometer erros e atribuem fatores externos a qualquer tipo de conquista.

A expressão “impostor” surgiu em um artigo publicado em 1978. No texto, as psicólogas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, usaram o termo ao classificar o comportamento de um grupo de mulheres bem-sucedidas que tinham a sensação de não serem tão capazes como os outros pensavam.

Desde então, pesquisadores documentaram esses medos em adultos de ambos sexos. Minorias – mulheres e negros, por exemplo – costumam ser mais vulneráveis à Síndrome do Impostor. Os estudiosos também encontraram maneiras de superar o problema: a psicologia.

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Autodiagnóstico

10 perguntas auxiliares na obtenção do autodiagnóstico da Síndrome do Impostor:

  1. Autoconfiança. Sou incapaz de confiar nos meus talentos/qualidades?
  2. Autodesempenho. Fico insatisfeito com meu autodesempenho, mesmo com dados quantitativos demonstrando resultados acima da média?
  3. Desmerecimento. Sinto não merecer o sucesso alcançado?
  4. Escondimento. Escondo dos outros as conquistas pessoais evitando o aumento da expectativa em relação a mim?
  5. Evitação. Evito avaliações ao máximo, embora quando avaliado os resultados sejam quantitativamente bons?
  6. Expectativa. Considero a expectativa dos outros em relação a mim exagerada?
  7. Fracassomania. Tenho certeza continuamente do fracasso iminente?
  8. Impostura. Sinto não possuir as qualidades apontadas pelos outros?
  9. Insatisfação. Considero insatisfatórios os resultados positivos alcançados, independentemente da opinião alheia?
  10. Sucesso. Atribuo o sucesso alcançado à sorte ou a algum ser superior?

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Distorção, Subterfúgio e Reforço

Distorção. O portador da Síndrome do Impostor distorce a própria realidade, ampliando e inventando defeitos/falhas pessoais, além de continuadamente minimizar os próprios traços fortes.

Subterfúgio. O medo de fracassar faz com que a pessoa tente parecer incompetente, pois estará agindo abaixo do que os outros esperam dela.

Reforço. Atuar abaixo da capacidade pode causar insatisfação e reforço no sentimento de impostura, pois não consegue fazer nenhum grande feito proporcional aos seus pontos fortes. Em geral, os métodos instintivos de autoproteção da pessoa reforçam a própria patologia.

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Ciclo de Funcionamento

Um exemplo característico:

  1. A pessoa tem um exame ou uma data limite de um projeto.
  2. Sente medo ou grande dúvida se desta vez vai ter sucesso.
  3. Pode ter pesadelos, sofrer de ansiedade e outros sintomas psicossomáticos.
  4. Sofre trabalhando muito e se preparando muito além do necessário, ou procrastina e, então, prepara freneticamente ao final do prazo.
  5. Tem sucesso e recebe feedback positivo.
  6. Pensa não ser capaz, pois se fossse não precisaria sofrer para ser bem sucedido.
  7. O ciclo e a crença são reforçados.

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Esforço em parecer o que não é

O esforço para parecer o que não é, seja para mais ou para menos, demanda muita energia da pessoa e também causa frustração, pois ou a pessoa se sabota e não consegue o desejado ou atua em subnível e fica insatisfeita levando a 5 tipos de sintomas decorrentes desse esforço contínuo e patológico do escondimento da suposta impostura e do medo constante de ser descoberto:

  1. Ansiedade generalizada.
  2. Baixa autoestima.
  3. Depressão.
  4. Esgotamento físico.
  5. Falta de autoconfiança.

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De onde vem isso??

Estudos demonstraram que portadores da Síndrome do Impostor tiveram mensagens da família contradizendo as mensagens de competência ainda na infância e que podem ter continuado na adolescência.
Muitas de forma franca “Você não é capaz!” ou subliminar com as brincadeiras podem fazer duvidar da própria capacidade, por exemplo, “Tirou 1º lugar? Mas fala a verdade, só tinha 1 competidor”.
Culturas com excesso na modéstia (orientais) ou com foco no que não conseguiram ao invés de valorizar conquistas (Adolescente que tira três notas 10 e uma 9,5 e o pai qenfatiza no porque não tirou 10 nesta também).
Uma religiosidade distorcida, com ênfase na perfeição, desvalorização pessoal,sentimentos de culpas perpétuos e incompreensão do conceito de humildade também reforçam a crença de incapacidade e desmerecimento.

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O Antídoto – A maturidade

Ser mais autocrítico e basear-se em fatos e não em opiniões vagas. A pessoa madura é menos influenciada pelo meio, diminuindo os fatores externos e privilegiando a própria personalidade na sua manifestação.

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Tem cura doutor?

Um método proposto para autossuperação da Síndrome do Impostor é composta por três fases:

  1. Identificação e reconhecimento dos pontos fortes.
  2. Uso dos pontos fortes/qualidades/talentos de modo consciente.
  3. Autossuperação

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1a Etapa: Identificação e reconhecimento dos pontos fortes

Identificação. Identificação pelas seguintes 4 técnicas apresentadas em ordem preferencial de aplicação:

  1. Listagem pessoal.
  2. Análise autobiográfica.
  3. Heterocríticas.
  4. Análise Rápida da Consciência.

Lista. O primeiro passo é fazer uma lista dos pontos fortes reconhecidos, que realmente assumem. Iniciar por esta técnica auxilia na medição de como a consciência se vê, naquele momento, sem interferência externa.

Inventário. A técnica da Análise Autobiográfica dos Pontos Fortes consiste em escrever a autobiografia desde a mais tenra infância, analisando os fatos ocorridos e os talentos em uso. Por exemplo, o talento da liderança se manifestando nas brincadeiras em grupo.

Criticidade. Ao realizar a autobiografia é importante ser criterioso, basear-se em fatos e não confiar plenamente na memória, pois o cérebro pode confundir as informações e até criar recordações inexistentes (STEIN at al 2009). A busca de informações com vários familiares para conferir as informações é recurso para melhorar a confiabilidade dos dados.

Entrevistas. Entrevistar pessoas de quem se era próximo na infância auxilia a identificar os talentos ociosos ou em subutilização. Em geral, os talentos não deixam de existir, a consciência é que deixa de usar.

Heterocríticas. Para aplicar a técnica da heterocrítica, o pesquisador solicita para pessoas, amigos e desafetos, do círculo de conhecimento, uma listagem de seus pontos fortes. É uma técnica auxiliar para identificar, principalmente, os talentos em uso.

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2ª Etapa: Uso dos talentos de modo consciente

Desafios. De posse da listagem dos pontos fortes, realizar uma programação para utilizá-los, por exemplo, dos 3 seguintes modos:

  1. Autoexposição. Para a pessoa exercitar a comunicabilidade deve apresentar e fazer perguntas em eventos com exposição. É preciso aumentar a autoexposição fora de sua região de controle, além da sala de aula. A pessoa verificará que nada de ruim vai acontecer e suas redes sinápticas se reorganizarão com a nova informação.
  2. Intelectualidade. Se a pessoa reconhece que está subutilizando sua capacidade intelectiva, ou que não se sente seguro em relação a este talento, é preciso sair de sua zona de conforto. Novas atividades intelectuais como lecionar disciplinas novas que requererão mais estudos ou investir em pesquisas mais avançadas com maior desafio intelectual são exemplos de como testar a própria capacidade.
  3. Liderança. No caso do talento de liderança estar sendo subutilizado, assumir coordenação, por exemplo, de colegiado, de grupo de pesquisa ou evento, é um modo de exercitar o uso desta capacidade.
  4. Adaptação. Os desafios para cada pessoa dependem de quais talentos estão ociosos ou sendo subutilizados. O ajuste do nível de enfrentamento depende de autoexperimentação, não se conhece fórmula para saber qual é o melhor para cada indivíduo.

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3ª Etapa: Autossuperação

A autossuperação é um processo, não é algo que acontece do dia para noite. O importante é autopesquisa contínua e no caso do portador de Síndrome do Impostor sempre verificar a satisfação com os autodesempenhos. Determinar novos desafios, continuamente realizando autoexperimentos para verificar o limite da sua capacidade pode ser uma profilaxia para não reincidir nesta psicopatologia.

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Tratamento pela Psicologia: Terapia Cognitivo Comportamental

Mais conhecida pela sigla TCC, a terapia lança mão de uma série de técnicas para identificar quais são as “crenças” do paciente. “São princípios duradouros que vêm do início da infância a partir das experiências de vida de cada um. Traumas, sucessos, educação fazem com que desenvolvamos uma série de crenças a respeito de nós mesmos, dos outros e do futuro”, explica o psicólogo Mário César Ponte

É a partir da identificação dessas crenças que os terapeutas podem promover uma reestruturação cognitiva. A TCC deve questionar aquilo em que a pessoa acredita para que ela própria entenda que está fora da realidade. “Com o tempo, deve-se propor que [o paciente] pense em conclusões alternativas e, mais para frente, ele será capaz de interpretar melhor os fatos a seu redor”, diz Ponte.

Independentemente da etapa da TCC, o mais importante é que a pessoa reconheça que o fracasso não faz dela uma fraude. “Fracassar, perder e estar errado às vezes fazem parte do trabalho. Não deixe isso definir você. Aprenda com seus erros e siga em frente”, sugeriu a jornalista Jessica Bennett.

E então? Que tal começar a ser mais realista e otimista consigo mesmo?

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ReferênciasBaseado e adaptado de:

  1. Síndrome do Impostor e a vida acadêmica – Adriana Kauati https://www.interparadigmas.org.br/wp-content/uploads/2014/05/Interparadigmas-Ano-01-N-01-Kauati.pdf
  2. TCC como estratégia de combate à Síndrome do Impostor – https://secad.artmed.com.br/blog/psicologia/sindrome-do-impostor-tcc/

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Vídeo brinde: (ative a legenda em português)

Dr. Victor Braga

Médico clínico geral com certificação em Medicina do Estilo de Vida Coordenador Médico do Centro Educativo Vida e Saúde (CEVS) em Porto Velho/RO - www.cevs.org.br

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